Perspectiva de vida

V: Talvez não fosse para ser assim.

C: Assim como?

V: Ser fraco, invisível, desprezado por muitos e sem afeição.

Se fosse visível, teria pinturas sobre mim, fotografias para recordação, talvez tivesse companhia ao invés de andar a vaguear sozinho por aí.

Se fosse como tu talvez seria acarinhado, tinha amigos e ia criar sentimentos, ia ser útil.

Tenho ir. É a vida de solitário na terra.

Adeus amigo.

C: Não vás já.

Posso-te dizer o que os meus olhos vêem e o que o meu coração sente?

 Tu és tão forte e tornas-te forte, muito forte quando carregas em ti a vontade de voar.

Tornas-te visível aos olhos daqueles que te esperam e talvez desprezado por muitos mas admirados por outros.

Eu admiro-te meu amigo, sabias?

Podes não ter fotos ou pinturas mas para que tu queres isso se o que importa é a tua recordação nas nossas faces quando te sentimos?

Vê bem a sorte que tens de viajar pelo mundo enquanto eu não posso libertar-me destas correntes que me separam da liberdade há muitos anos.

Se tu fosses como eu eras apedrejado, as vezes só por prazer, passavas frio e fome e ninguém te ia admirar porque ninguém admira a infelicidade.

Meu amigo, se tivesses no meu lugar, apenas vias a vida a passar a frente dos olhos e a desejar que passasse o mais rápido possível.

Cada um tem a sua perspectiva de vida mas eu só queria por momentos trocar de lugar contigo, mas já não é preciso.

V: Também eu meu amigo.

Amigo que tens? Que se passa?

C: A minha passagem por aqui já terminou e agora após estes anos todos nesta prisão vou voar contigo amigo, espera por mim.

V: Não desistas, fica comigo, preciso de ti?

C: Já vou ter contigo porque neste mundo de desumanos não há como não desejar estar contigo.

 

E nesse momento, só se ouviu um suspiro e uma brisa gelada e os dois amigos partiram para sua viagem infinita.

No dia a seguir o mundo sentiu a falta do nosso amigo V, pela sua ausência entre a florestas, pela sua arte de criar as ondas do mar e pelo seu talento de por as folhas as dançar.

E o nosso amigo C, que se encontrava aprisionado a vida há muitos anos, recebera uma visita no dia a seguir à sua partida. Essa mesma visita que há muitos anos se encontrava em coma e só agora conseguiu ir ver seu amigo já sem o brilho no olhar ou o coração a palpitar.

Resumindo, a liberdade terá sempre um preço.

Para muitos a liberdade é ter dinheiro, para outros a liberdade é conhecer o mundo mas para estes nossos amigos, a liberdade seria apenas o amor.

Ninguém tem a vida perfeita e nunca devemos pensar que os outros tem a vida de sonho que eles queriam.

Cada um tem a sua perspectiva mas devemos simplesmente agradecer por acordar cada manha.

Mesmo para quem não tem dinheiro, ou não tem saúde, ou não tem onde viver, ou não tem nada que o faca agarrar a vida, mesmo que tenha os dias contados, arranje uma forca, uma coragem em alguém ou em algo ou mesmo por si mesmo.

Porque é tão fácil partir mas você não imagina a dor dos que cá ficam e se isto bastar faça disto a coragem para lutar.

Veja além da sua perspectiva, e por favor lute com tudo, só não desista…

PS: O título deveria ser “Uma conversa entre o vento e um cão” mas aí iria logo mudar a sua perspectiva.

 

Patrícia Vila Nova – 13/2/17

 

 

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